"E se a cadeira sentisse o meu peso, seria incômodo ou ela foi feita e moldada para isso?" Estou criando algo sobre argila, material que ao longo do trabalho vai sofrendo nas mãos do artesão. Não dói ser lapidado, porque a construção leva à uma joia valiosa, a argila não, a argila faz e se refaz; horas para secar, depois quebrar e continuar... uma coisa é ser lapidado, outro é ser moldado. Estar em construção.
Quis fechar um ciclo, cumprir uma missão, quase um chamado literário. Ela me perseguiu por anos, ela me deu o caminho através das obras. Fui conduzida a sentir e me aproximar do que essa estrangeira sentia. Não se trata de mágica e muito menos espiritualidade, se trata de dar sentido.
De um lado Teresa, doutro Fátima, e ela, a bruxa estrangeira; a sem conexão com o país, a estrangeira na busca de pertencer e ser compreendida.
Ela sofreu absurdamente por não ser compreendida literariamente, buscou na escrita um refugio do estrangeirismo. Não foi uma decisão “escrever difícil”, era ela, o eu lírico e sua vida. Era simplesmente ela.
Gestei meus dois filhos lendo, relendo, pesquisando e quase desistindo. Fui tomada por um mergulho empático, onde as coisas faziam sentido, os estudos não comportavam o que eu achava que ela queria dizer; e o que ela nunca disse.
Veio a dúvida e o caos: o ego não pode e não deve ser maior que as evidências, pesquisas e como pesquisadora "eu não sou nada para achar qualquer coisa."
Até que sosseguei e ela também. Pude entendê-la quase que perfeitamente, mas é um risco traduzir os sentimentos de alguém sem permissão, é arriscado pensar ter algum tipo de poder sobre o sentimento do outro, quissa o sentimento literário.
"Me desnude, eu permito".
E foi assim que eu finalizei um ciclo, um trabalho, e uma missão.
Obrigada Haia.
